10 abril 2008

10 DE ABRIL DE 1985 - A DESPEDIDA

A dignidade que só o trabalho honesto proporciona, hoje em dia, é ameaçada pela idade. Situação comum: Você com certeza já soube de alguém que tentou se recolocar no mercado de trabalho, mas não obteve êxito por que já havia passado dos 40, dos 50, mesmo esbanjando saúde e experiência na função almejada. E também já ouviu queixas de conhecidos tentando ingressar no Clube dos Proletários, mas por não ter experiência anterior na função, não conseguiu apesar de ser jovem.
Será que a idade é um fator tão importante assim?
Façamos uma análise Cora-Coralínica.
A despeito de todas as imagens negativas que possam ser injustamente embutidas nos profissionais com mais verões, não há exemplo melhor do que o da poetiza, que iniciou sua carreira nos versos aos quatorze anos, mas só publicou seu primeiro livro aos setenta e cinco. Quando o passar do tempo significa acúmulo de experiência, maturação, só podemos associar à qualidade. Como um vinho.

Além do talento despontado cedo, o tempo só conferiu mais lucidez à Cora Coralina, justificando sua opção por publicar seu primeiro livro na terceira idade, menosprezando qualquer estigma.
Não foi o tempo que foi gentil com Coralina, foi Coralina que foi gentil com o tempo. A velhice, como proximidade da morte, nunca foi algo intimidador. A poetiza se manteve ativa e otimista, cheia de vida até o ultimo instante de seus 96 anos.

“Ser velho não significa morrer antes dos demais”. “Idade não significa exatamente morte”. “ Venho do século passado e tenho comigo todas as idades. Estou vivendo o melhor tempo da minha vida. A vida é boa e o melhor da vida é o trabalho”.
Todas as Vidas
Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo... Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mim a mulher roceira. -Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos. Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada... Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida - a vida mera das obscuras!
Cora Coralina

3 comentários:

Guarutor disse...

Bonita reflexão !

Lindo Poema !

Esse post é um daqueles que me convida à conhecer o que de cara já me agradou...

Vou ler Cora Coralina ali...

Abraço !
Anderson S.

Anônimo disse...

Bonita reflexão !

Lindo Poema !

Esse post é um daqueles que me convida à conhecer o que de cara já me agradou...

Vou ler Cora Coralina ali...

Abraço !
Anderson S.

Anônimo disse...

Bonita reflexão !

Lindo Poema !

Esse post é um daqueles que me convida à conhecer o que de cara já me agradou...

Vou ler Cora Coralina ali...

Abraço !
Anderson S.